Revista Recaptulando - 26º Edição - Editorial e publicações científicas comentadas
Editorial
Prezados leitores:
Interpretar os sintomas de alergia alimentar pode ser complicado devido à natureza dinâmica da resposta alérgica, que se altera com o tempo. O aparecimento de tolerância e melhora dos sintomas são relatados em crianças com todos os tipos de alergia alimentar. Vários equívocos e armadilhas no segmento de alergia alimentar sugerem a utilização de todos os testes disponíveis, em benefício do paciente.
Estudos sobre esse tema foram publicados por Sampson JACI 1997/2001, onde valores de IgE específicos são sugeridos, com alto grau de certeza, como pontos de corte para a confirmação desse diagnóstico em detrimento dos testes de provocação, outros estudos apresentam valores distintos, exemplo Boyano Clin Exp.All.2001 e Garcia Clin Exp.All.2004, entre outros.
As diferenças podem ser atribuídas a diferentes populações e idade, nos diferentes estudos, e são fatores que igualmente influenciam os valores para predicção das provocações de ovo e leite. Crianças mais novas reagem com níveis mais baixos quando comparadas com uma população com nível etário superior.
Boa Leitura
Early-life domestic aeroallergen exposure and IgE sensitization at age 4 years
Background
Apesar de ser amplamente considerado que a sensibilização aeroalérgenos comuns na infância é diretamente relacionada à exposição aos alérgenos no início da vida, poucos estudos longitudinais foram realizados para investigar esta questão, e os dados obtidos são escassos e limitados principalmente aos grupos de alto risco.
Objetivo
Nosso objetivo foi avaliar o papel da exposição precoce aos dois principais aeroalérgenos domésticos (Der p 1 e Feld 1) na sensibilização aos 4 anos de idade.
Métodos
Gestantes e suas crianças foram recrutadas para um estudo coorte: Asthma Multicenter Infant Cohort Study. Três coortes (Asthma in the United Kingdom, Menorca and Barcelona in Spain) seguiram o mesmo protocolo de pesquisa. Um total de 1611 crianças recémnascidas foram inicialmente incluídas na coorte, em 1474 destes casos foram coletadas nas casas, amostras de poeira doméstica aos 3 meses de idade, para avaliação dos níveis de Der p 1 e Feld 1. Além disso, foram coletadas amostras de sangue para determinação de IgE específica de 1019 crianças deste grupo.
Resultados
O risco de sensibilização a Feld 1 aumentou com a exposição de modo não linear. Não foi observada associação entre IgE específica a Der p 1 e os níveis de exposição precoce a aeroalérgenos em dois centros,mas uma correlação positiva foi observada no terceiro grupo.
Conclusões
A relação dose-resposta entre exposição ao alérgeno e sensibilização difere entre os alérgenos e pode variar entre os diferentes locais. A hipótese de que a sensibilização ao ácaro doméstico está diretamente relacionada aos níveis de exposição ao alérgeno pode não ser aplicável para a população geral ou a diferentes níveis de exposição.
Implicações clínicas
Evitar aerolérgenos pode não apresentar efeito importante na incidência de sensibilização.
Comentários
A relação entre exposição e sensibilização a alérgenos é mais complexa do que inicialmente proposto.Diferentes estudos mostram a influência de múltiplos fatores nesta interação. Os primeiros resultados que apontavam esta associação foram observados em estudos menores e condições específicas.Investigações incluindo grupos maiores, ou melhor, coortes como os avaliados neste estudo contestam a generalização desta afirmação. A exposição à alérgeno de gato e seus efeitos tem sido foco de investigações, que sugerem que neste caso, em particular, a exposição induz a um estado de “tolerância”.Esta condição não é evidenciada com outros aeroalérgenos. Diversos fatores parecem influenciar a relação entre exposição e sensibilização, que depende do alérgeno e da região geográfica. O conhecimento desta variabilidade, das peculiaridades desta interação alérgeno/ambiente/hospedeiro, é importante para a compreensão do processo de sensibilização e do desenvolvimento da asma.
Biologic immune modifiers: Trials and tribulations–are we there yet?
A Agentes biológicos como modalidades terapêuticas têm despontado como um importante novo tratamento medicamentoso. Este artigo focaliza grupos específicos de anticorpos monoclonais e proteínas recombinantes moduladoras da resposta imune,e seu uso ou o seu potencial uso na asma como exemplo de processo alérgico inflamatório. Apesar de alguns destes novos agentes biológicos estarem sendo usados, correntemente, apenas em modelos animais de doença alérgica ou em outras doenças inflamatórias ou autoimunes, este campo está progredindo tão rapidamente que em poucos anos, estas novas modalidades de tratamento poderão ser aplicadas a doenças alérgicas. Este artigo apresenta um resumo das evidências que embasam a utilização destes novos agentes biológicos na asma.
Embora se observe um grande otimismo com esta nova classe de drogas, é necessário cautela ao se extrapolar resultados in vitro ou estudos em modelo animal; eventos adversos têm acontecido. De todo modo, como nós aprendemos como modificar e alterar os processos inflamatórios e imunes com estes novos agentes biológicos, clínicos irão encontrar uma nova era de tratamento com opções avaliáveis para seus pacientes com doenças alérgicas.
Comentários
Os grandes avanços observados nos últimos anos no conhecimento da imunobiologia e patofisiologia da asma têm permitido o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, mais especificamente monoclonais e proteínas recombinantes. Muitos destes agentes têm sido testados em trabalhos experimentais e em diferentes patologias. Os objetivo destes novos agentes, no caso especifico das doenças alérgicas, incluem bloqueio da interação IgE –receptor;monoclonais anti- citocinas e receptores de citocinas envolvidas no processo alérgico inflamatório (ex. IL-5 ; RIL-2). Anti-citocinas proinflamatórias, ou anti-moléculas de adesão também tem sido experimentalmente utilizadas para controle da asma. As aplicações ainda são restritas, voltadas a grupos específicos, e embora se observem resultados animadores em muitos casos, também são relatadas reações adversas. O progresso tecnológico tem permitido refinar melhor estes produtos procurando melhorar e ampliar sua aplicação prática. A perspectiva é de que em breve novos agentes possam ser acessíveis para uso clínico, mas para tanto é fundamental validar os resultados observados em trabalhos experimentais.
The many faces of the hygiene hypothesis
Cerca de 15 anos se passaram desde que Strachan pela primeira vez propôs a idéia de que infecções e contato sem higiene poderiam conferir proteção contra o desenvolvimento de doença alérgica. A tão comentada Hipótese de Higiene tem sofrido modificações maiores e menores por diferentes pesquisadores nas áreas de epidemiologia, ciência clínica, e imunologia. Três principais tratados foram desenvolvidos explorando o evidente papel das infecções por vírus e bactérias, o significado da exposição ambiental aos componentes microbianos, e o efeito de ambos no desenvolvimento das respostas da imunidade inata e adaptativa.Até o momento, um conceito único e verdadeiro ainda não foi evidenciado, mas vários pontos da complexa interação entre as respostas imunes do hospedeiro, características do microorganismo invasor, o nível e a variedade de exposição ambiental, as interações entre herança genética e o grau de exposição parecem evidentes. Nesta revisão, estas influências são discutidas como determinante de certo número de doenças alérgicas, enquanto que nós procuramos prestar atenção na importância dos diferentes fenótipos, incluídos na síndrome da asma. Apesar de ainda não ser possível deduzir todas as implicações práticas destes achados, existe um grande potencial para o desenvolvimento de novas estratégias preventivas e terapêuticas no futuro.
Comentários:
A interação entre doença alérgica, fatores ambientais e infecções é um processo complexo, que precisa ser decifrado para que se possa esclarecer a patogenia da doença alérgica. Infecções clínicas ou sub-clínicas por vírus e bactérias, assim como a relevância da exposição a microorganismos não patogênicos, não seguem um padrão único. A participação do balanço Th1/Th2 na indução/proteção da doença alérgica também tem sido reavaliada. Os mecanismos relacionados ao equilíbrio Th1/Th2 são primordiais, mas não suficientes para explicar os efeitos relacionados à Hipótese de Higiene. Células reguladoras e dendríticas, outras citocinas e mediadores também modulam a resposta imune infuenciando a produção de anticorpos IgE. O efeito de cada um destes agentes/condições depende das características próprias, de fatores genéticos, da capacidade de induzir resposta imune, da interação com fatores do hospedeiro.
Não se tem estabelecido um conceito universal que compreenda o potencial efeito benéfico das infecções e dos fatores ambientais. Situações particulares, modelos específicos corroboram a importância da Hipótese de
Higiene, mas com mais cautela do que no passado. Com todos os progressos observados na área ainda não conseguimos deduzir nenhuma medida prática. A principal tentativa de introduzir uma aplicação clínica baseado nesta teoria foi a administração de probióticos para prevenção de alergia. Os resultados foram positivos, mas precisam ser validados em estudos populacionais. Até o momento, não existem fundamentos que respaldem recomendações específicas relacionadas à hipótese de higiene para prevenção da asma e alergia, mas não podemos descartar esta possibilidade em futuro próximo.